quarta-feira, 7 de maio de 2008

O DIA, O PÃO E O OFÍCIO

Claras... As coisas vão ficando mais claras com o nascer do dia. As nuvens começam a tomar forma de nuvem, as coisas começam a ser como de fato são, ou como de fato enxergamos toda manhã.
Típico alvorecer de outono. O sol parece preguiçoso, faz meia luz para valorizar a silhueta da cidade. É metido a besta também. Economiza no calor para dar um toque mediterrâneo as manhãs aqui dos trópicos. Ah, mas depois o danado se espalha e derrete o que passar por sua cabeça quente.
Quando tudo começa a clarear desperta a vida na terra de gigantes. O céu tira o negrume sisudo mas aqui embaixo a carranca de adulto dá o tom rotineiro a selva de pedra.
No caminho da labuta acompanho o principio da trajetoria de pessoas. Gente importante, ou que nem a gente mesmo.
Meu vizinho, com ressaca crônica, vai para a fábrica de biscoitos andando para não chegar nessa era. O pescoço segura a cabeça e esta não tem vocação para Atlas. Sono do tamanho do mundo!
O bairro é nobre e recheado de herdeiro pobre.
Três quadras, um cigarro e um punk rock a frente, o advogado saúda o fisioterapeuta, entra no carro num sincronismo ensaiado. Eles se entendem bem. Saem para defender e cooperar.
Pouco antes da pracinha, o motorista vai a pé. É o paradoxo da jornada que vem pela frente. O barbudo vai agradecer quando não tiver mais nenhuma criança para carregar. Depois do expediente só terá que olhar a sua correndo de bicicleta.
Após atravessar uma avenida, entro no bairro pobre, de gente pobre.
Ruas estreitas e compridas e mais outro cigarro fazem a respiração ficar ofegante. Aí vem o trabalhador que mais me fascina. Jovem, com roupa de jovem, mas andar sério de quem tem que fazer as coisas por alguém. Rosto liso e sem cara de sono, atento e disposto a matar o leão que lhe botarem nas fuças.
Até hoje não sei onde trabalha o rapaz, contudo o que traz na mão esquerda todos os dias deixa bem claro qual é o seu principal ofício. Segurando a ponta de seus dedos vem o filhote.Mochila nas costas, a caminho da escola. A fisionomia descarta qualquer complexo de Bentinho. Levemente estrábico como o progenitor o menino veste touca, nesta manhã de outono e até quando é verão. Fora o gorro, a roupa é quase igual a do seu guia. A diferença é que a criança dá ares de adulto com a vestimenta e o jovem passa impressão pueril.
É, não resta dúvida, onde quer que que o mancebo bata o cartão, seu emprego principal é o que exerce no começo do dia: ser pai.
O apreço com que ele acompanha o filho não é maior do que a pressa que o contemporâneo pede, nem grande feito o orgulho que ele tem em dar a mão ao filho. Passam os dois sorridentes, de passo firme mostrando a garantia que um dá ao outro de que a vida é a melhor coisa do mundo, pelo menos naqueles instantes, em que não tem Batman e Robin que se compare ao entrosamento que essa dupla dinâmica tem.
Esses dias porém, passava pelo trecho onde sempre encontro o jovem e o menininho. Vinham como de praxe, com o mesmo andar, sorriso, tênis, touca e admiração. Mas uma esquina antes de passarem por mim um carro branco parou e ofereceu carona aos dois. Entraram. O pai na frente e o filho atrás. O carro começou a andar e quando passei por eles só pude notar o tapinha nas costas que o condutor do veículo deu no rapaz. Partiram os dois conversando...
Naquela manhã de outono, de luz fraca, de frio falso, de dia útil, meu vizinho foi a fábrica, o advogado e o fisioterapeuta foram aos seus postos, o motorista foi ( a pé) levar crianças. Mas a carona do carro branco fez o pai faltar no trabalho.




Felipe Modesto

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